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Como a escola e a família lidam com a culpa e a agressividade da criança?

  • Foto do escritor: Janine Rodrigues
    Janine Rodrigues
  • 18 de jan.
  • 3 min de leitura

Como a escola e a família lidam com a culpa e a agressividade da criança?


Algumas vezes, escolas e famílias partem do princípio de que o mau comportamento/a agressividade, surgem da falta de ‘’consciência’’ ou de limites da criança. Mas isso pode acontecer justamente pelo contrário: criança que tem, na verdade, uma consciência cruel demais com ela mesma.


O ato agressivo muitas vezes não é a causa da culpa, mas sim o seu resultado. Trata-se da pressão do medo e da culpa, insuportáveis, que mobiliza a criança a agir agressivamente. Significa que aquela criança que "ataca" pode estar, na verdade, tentando lidar com uma ansiedade interna e um medo esmagador.

Algumas crianças são escondem seus medos. 


O que devemos observar?


1. Alegria Artificial: Uma vivacidade excessiva pode ser um refúgio para esconder infelicidade e ansiedade. Se o contentamento parece "fabricado", vale um olhar mais atento.

2. Inibição do Brincar: A incapacidade de brincar e a tendência de apenas quebrar brinquedos podem ser sinais de fantasias cruéis reprimidas. Quando uma criança não consegue usar a imaginação de forma criativa, ela pode estar bloqueada por um sentimento de culpa paralisante.

3. Fuga da Realidade: Crianças usam as brincadeiras como um refúgio dos desejos não realizados. No entanto, quando essa fuga se torna dominante, pode ser indício de dificuldades mais profundas que surgem, especialmente quando as exigências do mundo real aumentam, como início da vida escolar, divórcio, morte de alguém próximo…


Desde o primeiro ano de vida, impulsos sádico-orais (o desejo de morder ou "devorar") e sádico-anais (o desejo de dominar e destruir) estão presentes na vida da criança.


Essas tendências se voltam para as pessoas mais próximas: pai, mãe, irmãos... O ciúme de um irmão, por exemplo, pode gerar fantasias de destruição, que por sua vez geram uma culpa intensa. 


A criança ama as mesmas pessoas que, em sua fantasia, ela deseja atacar. Esse conflito entre amor e ódio é o fardo mais pesado que o pequeno ego de uma criança precisa carregar.


O superego (instância moral da personalidade, que internaliza os ideais, valores e proibições dos pais e da sociedade, consciência que julga o eu e pune com sentimentos de culpa) começa a agir já no segundo ano de vida. Esse superego não é apenas um reflexo dos pais reais, mas é moldado pelas próprias fantasias agressivas da criança.


Quando esse superego é excessivo, a criança entra em um círculo vicioso: ela comete "atos ruins" para ser punida, acreditando que a punição aliviará sua culpa. 

Se notarmos uma criança que repete constantemente o mesmo mau comportamento, apesar das punições, ela pode estar presa nessa busca inconsciente por castigo para aplacar uma consciência/pensamento impiedoso, doloroso para ela.


Como ajudar?


Vale lembrar que as crianças são diferentes, com histórias diferentes, com subjetividades diferentes. As orientações ajudam, mas, todas devem considerar a seguinte pergunta: de que criança estamos falando?


Dito isso, em geral, direcionar essa energia das fantasias agressivas para fins construtivos, como o trabalho artístico ou o esporte pode ajudar. O esporte, por exemplo, permite que a agressividade seja trabalhada fisicamente, servindo como uma compensação para a ansiedade.


A arte ajuda na elaboração e também na descarga de energia, assim como o esporte.


Além disso, é fundamental valorizar a capacidade de amar da criança. Mesmo naquelas que parecem mais "embrutecidas", a análise mostra que existe um amor sincero e profundo, muitas vezes escondido sob camadas de medo e ódio.

Não existe criança sem conflitos. Porque não existe ser humano sem conflito.


O sofrimento infantil é real e incalculável nos primeiros anos. Nosso papel como adultos não é apenas educar moralmente, mas ser observadores que aceitam a existência desses impulsos sem julgamento imediato, ajudando a criança a lidar com eles.


Ao entender que a agressividade pode ser um pedido de socorro de um superego esmagado pela culpa, não ficamos só na disciplina, mas ampliamos para o acolhimento e afeto.


Janine Rodrigues, 

Psicanalista, educadora, escritora, fundadora da Piraporiando

 
 
 

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©2022 por Janine Rodrigues

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